Quando o comércio cala a ética

01/06/2009 0 Por Rodrigo Cintra

O presidente brasileiro, Lula, recebeu uma visita do presidente Islam Abdiganivevich Karimov, do Uzbequistão. A visita em si não trás grandes novidades, sendo algo que faz parte do cotidiano do mundo diplomático. No entanto, uma análise do entorno do encontro, bem como de seus preparativos, mostra uma tendência contemporânea cada vez mais forte e “normal”: desde que o objetivo seja ampliar o comércio mundial, tudo o mais é relevado.

O governo uzbequistanês é hoje fonte de uma série de ataques em termos de desrespeito aos direitos humanos, bem como de ações nada democráticas. Várias organizações não-governamentais acusam os desrespeitos à vida e aos direitos básicos, chegando até a uma declaração do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Os problemas indicados englobam trabalho infantil, torturas e perseguições.

Chama a atenção que o desrespeito aos direitos humanos, neste caso, não se resume a um grupo étnico ou a um grupo separatista. Bem ao contrário, são práticas regulares perpetradas pelo próprio aparato estatal. Com isto, o Uzbequistão é tido como um dos países mais autoritários que existem.

A ditadura no país é explícita. O presidente Karimov está no terceiro mandato, mesmo que a constituição do país permita apenas dois, alcançando quase 20 anos de poder.

Mesmo diante deste quadro, Karimov foi recebido pelo presidente Lula. O governo brasileiro, por sua vez, ao ser questionado sobre a recepção a um governante reconhecidamente ditatorial, limitou-se a responder, por meio do Ministério de Relações Exteriores, que não está em condição de comentar quaisquer acusações contra o governo uzbequistanês. Desta forma, o grande objetivo da visita é, de acordo com o próprio ministério, “estimular o comércio e promover um maior engajamento entre os dois países”.

Com isto, torna-se difícil compreender porque a diplomacia de um país toma assento em uma organização internacional, gasta tempo discutindo ações multilaterais conjuntas, construindo tratados e declarações internacionais nas mais variadas áreas, incluindo aqui os direitos humanos, para, em seguida, limitar-se a não comentar casos explícitos de violações aos direitos humanos.

Se efetivamente a questão dos direitos humanos deve radicalmente observada, nenhum governo pode se calar frente a possibilidades de combate a tais crimes. Trocar o cômodo silêncio frente a evidentes crimes contra os seres humanos por uma tentativa de ampliar o comércio bilateral é, no mínimo, uma das mais mesquinhas ações.

Caso efetivamente o comércio bilateral entre o Brasil e o Uzbequistão seja ampliado com este encontro, no mínimo o resultado será um maior afluxo de riqueza para o Uzbequistão, o que, por sua vez, facilitará a manutenção do atual governo. Isto sem levar em consideração que parte do comércio poderá estar sustentado em trabalho infantil.

Além da razão oficial do encontro, ou seja, a ampliação das trocas comerciais entre os dois países, há outra razão, ainda mais problemática: a eterna candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Sem entrar aqui no mérito da demanda em si, especialmente no que tange a real utilidade desta cadeira para o país, vem a legitimidade da conquista de mais um voto. Neste caso, o que se vê é o silenciar de um governo, frente barbaridades acometidas por outro, desde que este último sirva aos interesses daquele. Interessante notar que a candidatura brasileira ao Conselho de Segurança se fundamenta sobretudo na idéia de maior democratização do sistema internacional. Só não é possível compreender como essa maior democratização pode ser verdadeira se sustentada no apoio a governos anti-democráticos.

O maior problema disto, é que tal situação não é um caso brasileiro apenas, mais do que isto, casos como este podem ser vistos mundo afora. Tanto Estados Unidos quando União Européia reduziram sanções econômicas impostas contra o Uzbequistão. O objetivo é uma maior aproximação entre os países, especialmente em função de ações militares conjuntas no Afeganistão.

E, assim, as lindas palavras em torno de importantes tratados e convenções internacionais rapidamente sucumbem diante de projetos muito mais imediatistas.

 

Publicado originalmente em Revista Autor

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