Perfil do Profissional de Relações Internacionais (entrevista)

Qual é o perfil de um profissional de Relações Internacionais?
RC: O campo de atuação do profissional é  muito amplo, de forma que é difícil determinar um perfil para o profissional. Em linhas gerais, no entanto, é possível afirmar que o profissional  de relações internacionais deve ter algumas características pessoais básicas, como adaptabilidade, capacidade de compreender diferenças, pensamento estratégico e boa disposição para conhecer novas culturas.

Qual a faixa salarial de quem trabalha com Relações Internacionais?
RC: Aos poucos os profissionais de relações internacionais têm encontrado seu espaço no mercado de trabalho, o que ainda deixa incerta a faixa salarial. No entanto, é possível notar que os recém-formados que trabalham em grandes empresas ganham entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil.

Quais são as áreas de atuação de um profissional de Relações Internacionais?
RC: O profissional pode atuar em praticamente todas as áreas que têm alguma ligação, mesmo que indireta, com as questões internacionais. Assim, existem as possibilidades mais clássicas e obvias, como diplomacia, negociações internacionais, missões de paz, cooperação internacional. Por outro lado, é importante também observar que existem possibilidades menos óbvias, mas que parecem ser as mais promissoras, e que estão ligadas a tarefas já consolidadas de outras áreas, como o marketing, atendimento a cliente, estratégia empresarial e governança. Independente da área em que se queira atuar, o importante para o profissional de relações internacionais é conseguir ligar o a atividade que esteja desempenhando com a questão internacional. Para isso, é fundamental entender as conseqüências da interdependência internacional, entender as cadeias produtivas mundiais, os fluxos (financeiros, migratórios, de informações…), e as dinâmicas de conflito/cooperação que acabam influenciando a capacidade de atuação dentro de um país.

É preciso necessariamente morar fora do país?
RC: Não é preciso morar fora do país, mas é altamente aconselhável. Ao contrário do que a maior parte das pessoas  imagina, apenas uma pequena parte dos profissionais de relações internacionais ficam viajando pelo mundo. As tarefas cotidianas desse profissional, em geral, estão mais ligadas a um ponto fixo, ainda que se mantenha em constante contato com pessoas pelo mundo. A idéia básica é que o profissional vai se dedicar a ações que façam com que as relações internacionais continuem a fluir. Assim, ser um profissional de relações internacionais não pode ser confundido com ser as relações internacionais em si.

É o tipo de profissão abrangente que terá muitas áreas de atuação?
RC:  Em sua própria definição já é possível ver que existem muitas áreas de atuação. Podemos falar de relações internacionais políticas, comerciais, diplomáticas, cooperativas, subnacionais, transnacionais… Essa abertura deixa os estudantes perdidos na hora de procurar emprego, dando a impressão de que não tem onde trabalhar. O segredo é primeiro identificar o que a pessoa gosta de fazer. Uma vez feito isso, a pessoa deve procurar um lugar para trabalhar e que demande esse perfil. Apenas num segundo momento é que o profissional de relações internacionais deve procurar fazer as ligações entre o que está fazendo e o mundo internacional. Sempre defendo a idéia de que um estudante não deve esperar um emprego de "relações internacionais" mas sim o de marketing, comércio exterior, atendimento a cliente… e, uma vez trabalhando com isso, mostrar que tem alguns diferenciais.

Quais as melhores faculdades para Relações internacionais?
RC: Esse é uma pergunta complicada de responder na medida em que os cursos variam muito no formato e na proposta de formação. Vou me ater apenas aos cursos com os quais já tive alguma ligação. Alguns apresentam uma natureza mais política (como a PUC-SP), enquanto outros procuram um perfil mais econômico (como a FAAP e a FACAMP); ainda existem cursos mais voltados à estratégia (como o UNIBERO).

Como funciona o trabalho em ONGs?
RC: Para o profissional de relações internacionais esse é um campo que tem se aberto, mas ainda muito lentamente. Duas  possibilidades surgem imediatamente nessas instituições. A primeira é ligada à captação de recursos internacionais. Há uma demanda muito grande por parte das ONG brasileira por recursos internacionais, e saber identificar o parceiro ideal e fazer um bom projeto de captação é uma tarefa que pode ser desenvolvida pelo profissional de relações internacionais (ainda que poucos profissionais estejam qualificados para fazer esse tipo de atividade). Outra possibilidade de atuação é a parte de cooperação internacional, que exige um profissional capacitado para adaptar um projeto à realidade de seu país, ao mesmo tempo em que mantêm uma linguagem comum com o parceiro internacional.

O Mercado brasileiro tem suporte para profissionais dessa área?
RC: O mercado brasileiro  de ONG ainda está bastante imaturo para esse tipo de profissional, coisa que ocorre em outras áreas de atuação desse profissional. Aos poucos temos descoberto a importância das ações que esse profissional pode desenvolver. Passamos toda nossa história com poucas pessoas atuando na área de relações internacionais, ainda demora um certo tempo para a consolidação dessa nova área. Mesmo com a pressão que o Brasil sofre do mundo, no sentido de se internacionalizar, acredito que ainda precisaremos de pelo menos 10 anos para começar a realmente sedimentar o campo de atuação do profissional de relações internacionais. As pessoas que tiverem se dedicando a essa área agora deverão estar conscientes de que há muito desafio pela frente, mas também poderão aproveitar oportunidades ainda inexploradas.

Se um aluno decide fazer um curso de intercâmbio em outro país, que tipo de curso você aconselharia?
RC: O intercâmbio pode ser em qualquer área. O aluno deve procurar um tema que lhe agrada e se aprofundar nessa área. É interessante notar que em outros países, especialmente os europeus, existem cursos de relações internacionais mais delimitados (como cooperação internacional, integração regional, direito comunitário, resolução de conflitos…). Um bom caminho é o aluno fazer a graduação em relações internacionais no Brasil e, em seguida, fazer uma pós-graduação em um país estrangeiro.

Qual a diferença entre relações internacionais e comércio exterior?
RC: Comércio exterior tem um objeto mais claro, que são as relações comerciais. Com isso, o profissional dessa área estuda da parte procedimental (despacho aduaneiro), à parte internacional propriamente dita (prospecção de mercados), passando pelo que vem no meio dessas duas pontas (logística). Já o profissional de relações internacionais não tem um objeto claro, de forma que pode estudar diferentes coisas. Para aqueles que acabam se direcionando para a questão comercial, talvez a principal diferença seja que o profissional de relações internacionais se foca mais nas questões macro, ligadas à dinâmica comercial, enquanto o profissional de comércio exterior se foca mais na questão do cotidiano das negociações. Ambos são igualmente importantes e têm complementado o trabalho um do outro.

Quais as principais habilidades que um profissional da sua área precisa adquirir?
RC: Pensamento  estratégico, ou seja, capacidade de articular vários fatores de diferentes naturezas me parece uma das principais habilidades que um bom profissional pode apresentar. Temos que entender quais são os impactos comerciais de uma decisão política. Quais são as conseqüências para a integração regional quando há uma  nova tendência produtiva em curso. Quais são os impactos na estabilidade regional quando um país inicia uma guerra com seu vizinho. Os problemas que temos que enfrentar quando atuamos com relações internacionais exigem essa capacidade de articulação de idéias e desenvolvimento de possíveis cenários. No nível pessoal, o profissional precisa ser muito seguro de si e de suas idéias. O rigor analítico é fundamental para que esse profissional indique e tome ações que alcançarão sucesso.

Quais as principais línguas que precisa falar?
RC:  O inglês é uma língua básica, fundamental. Para o caso de brasileiros, o espanhol aparece como uma língua igualmente importante. As demais línguas não são fundamentais para o desenvolvimento das atividades da maioria dos profissionais de relações internacionais, mas certamente ajudam muito no desenhar de uma carreira. O francês e o alemão aparecem como importantes línguas para brasileiros na medida em que temos várias empresas desses países instaladas no Brasil. De qualquer forma, acredito ser um erro substituir o inglês e o espanhol por qualquer outra língua, enquanto não tiver o domínio dessas duas, concentrar-se nas demais é um risco na perspectiva de carreira profissional.

Que tipos de projetos beneficentes eu posso desenvolver cursando essa profissão?
RC: A realização de projetos beneficentes independe da carreira escolhida. No caso das relações internacionais há uma gama de possibilidades de atuações em prol de comunidades ou de povos, numa perspectiva mais ampla. Dentre eles, destaca-se a participação em missões de paz, um projetos de cooperação internacional, de ajuda e reconstrução de países devastados por tragédias naturais… O importante aqui é ter em mente que não se trata apenas de uma ação beneficente, bem ao contrário, a ação deve ser profissional, com planejamento, logística, recursos e objetivos.

* Entrevista feita por Fernanda Nascimento, do Liceu Coração de Jesus.

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