Resenha: Os Instrangeiros – Cristovam Buarque
O momento é de campanhas eleitorais e o resultado, no mundo editorial, é o surgimento de livros dos candidatos (por eles mesmo escritos), oferecendo um pouco de seu perfil e muita munição intelectual para os infindáveis debates políticos. De repente, no meio destes livros "políticos" enfadonhos, surge Os instrangeiros – Aventura da opinião na fronteira dos séculos (Coleção Os Visionautas – Editora Garamond).
O livro é composto por artigos que o autor publicou nos mais variados jornais, selecionados e dispostos por temas afins (mesmo que sem divisões formais), criando-se uma continuidade que não só nos permite entender como pensa Cristovam Buarque, como também o próprio Brasil.
Durante a leitura, o leitor mais sensibilizado oscilará entre a vontade de fechar o livro e procurar esquecer tudo o que leu, e o de sair de casa e fazer alguma coisa pelo Brasil. Suas posições são incisivas e claras; vê-se claramente que os artigos selecionados não querem apresentar um livro de final de semana, para ler sem compromisso.
Chama a atenção a pertinência das críticas e a capacidade que o autor apresenta de expor verdades profundas em duas ou três páginas. O livro é dedicado à Celso Furtado e Gilberto Freyre, dois expoentes da intelectualidade brasileira que têm suas vozes ecoadas e atualizadas nestas páginas de Cristovam Buarque.
Explicar o Brasil é difícil, sobretudo quando se tem medo de ferir os brios deste ou daquele grupo. O pensamento do autor supera este problema pois entende que o Brasil é feito por brasileiros, e todos nós compartilhamos um mesmo imaginário histórico-social. Nas palavras do próprio autor, "o maior entrave à erradicação da pobreza está no fato de que o brasileiro deseja ser rico antes mesmo de deixar de ser pobre" (p. 77).
Os princípios sociais que nos são apresentados no decorrer da leitura nos põe à nu. Porém é um nu que é só nosso, certamente um estrangeiro não conseguirá entender todos os recados que o livro trás; sin embargo, muitos de nós também não conseguiremos (ou quereremos?) entender, veremos um livro de coisas "instrangeiras".
Uma pequena seleção de trechos mostra um pouco deste Brasil visto por Cristovam Buarque e ignorado por tantos de nós.
Relação elite-povo e relação mundo-elite brasileira: "A elite brasileira se surpreende ao perceber que o capital global trata como pedintes todos os brasileiros, inclusive os ricos" (p. 59).
Desigualdade não é sinônimo de diferença: "Estas elites viam o povo como diferente, sem semelhança com eles, tanto quanto os brasileiros ricos de hoje vêem os pobres" (p. 66).
Os acontecimentos do cotidiano injusto logo são tidos como normais: "Nós já estamos acostumados a volta ao normal depois de chacinas, assassinatos de crianças, divulgação dos piores indicadores sociais do mundo, corrupção na política, incêndios na Amazônia. É rara a semana em que não ocorre um fato deste tipo e tudo continua normal" (p.69).
O papel do Estado: "A erradicação da pobreza só será conseguida quando o Estado brasileiro sair do paternalismo a favor dos ricos e se transformar em mobilizador do imenso potencial que existe nas massas brasileiras, canalizando-o no sentido de que produzam aquilo de que precisam para sair da pobreza" (p. 75).
A elite e o país: "O maior problema brasileiro não é a falta de dinheiro para criar os empregos necessários aos desempregados, mas a falta de sensibilidade da elite em relação aos problemas sociais, o seqüestro da imaginação brasileira pelo pensamento econômico tradicional e a prisão dos economistas por uma lógica econômica incapaz de criar empregos" (p. 99).
A leitura é enormemente enriquecedora quando temos em mente que o autor é mais que um intelectual, é um político, que transforma suas idéias em práticas; que não usa suas palavras em exercício de retórica porém em exercício de diálogo.
Talvez entre as principais características do autor, seja justamente aquela que é a mais importante para um político: a indignação. Política não pode ser a arte do apaziguamento de discursos, deve ser o caminho para a construção de uma sociedade e isso exige que nos levantemos contra as injustiças.
"O quadro brasileiro pode ser menos impactante do que as chamas e as ruínas concentradas das torres americanas, mas não é menos grave – e o número de vítimas certamente é muitas vezes maior. Por isso, não se justifica a naturalidade como é tolerado por nossos governantes. Os mesmos que ficam com os olhos marejados pelo espetáculo trágico das ruínas em Nova Iorque e nem ao menos visitam as reinas de ‘nossas torres’, não conversam com nossos sobreviventes, não fazem guerra contra o terror social" (p. 142). Publicado originalmente en:
Revista de autor
Cultura
Ano II – norte. 13 – julho de 2002
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