Convivemos, ao longo da vida profissional, com líderes de todos os tipos: inspiradores, rígidos, justos, omissos, inseguros. Mas há um tipo em particular que nos marca profundamente — o líder tomado por seu próprio ego. Aquele que confunde autoridade com vaidade, reconhecimento com controle, e missão com protagonismo pessoal.
A princípio, achamos que se trata apenas de alguém difícil. Com o tempo, entendemos que o que está em jogo é a estrutura emocional de toda a organização. O ego inflado não é uma excentricidade inofensiva — ele tem efeitos concretos: silencia equipes, inibe inovações, paralisa sucessões, distorce a cultura. Mas há algo que aprendi ao longo dos anos e que preciso compartilhar: lidar com esse tipo de liderança, por mais desafiador que seja, também nos ensina. Muito.
“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Viktor Frankl
Frankl, ao tratar do sentido que podemos dar mesmo às situações mais adversas, oferece uma chave poderosa para esse tema. Porque, ao enfrentar lideranças egóicas, somos chamados a nos posicionar com mais clareza: o que estou fazendo aqui? O que estou me tornando nesse ambiente? Até que ponto vale me adaptar — e quando é hora de preservar minha integridade?
Muitas vezes, o ego do líder nos convida a um jogo perigoso: o da comparação constante. Começamos a duvidar da nossa importância, da nossa capacidade, da nossa trajetória. Mas aí está o ponto central: não é sobre vencer o ego do outro — é sobre não permitir que ele distorça o nosso valor. Lideranças tóxicas podem ser também nossos maiores espelhos — revelando nossas forças ocultas e os limites que precisamos aprender a impor.
Já conheci profissionais que, ao se sentirem diminuídos por seus líderes, encontraram ali o impulso para mudar de área, de empresa ou até de país. Otros, ao perceberem o esvaziamento do ambiente, decidiram estudar mais, empreender, inovar. E alguns, com enorme sabedoria, escolheram permanecer — mas com uma nova postura, mais estratégica e menos dependente de validação externa.
O ego do líder, por mais opressivo que seja, não precisa nos aprisionar. Ele pode, paradoxalmente, nos lembrar daquilo que não queremos ser. E pode nos desafiar a cultivar o tipo de presença que não precisa gritar para ser ouvida, nem controlar para ser respeitada.
Encerrar essa série com esse olhar é, para mim, um gesto de reconciliação com a realidade. Nem toda liderança será inspiradora. Nem todo gestor saberá lidar com o próprio ego. Mas sempre haverá espaço para que a gente escolha quem queremos ser nesse caminho — mesmo quando tudo à nossa volta parece apontar para o contrário.