De carreira vitalícia a jornada transacional

A trajetória do trabalho moderno revela uma transformação profunda: de um pacto tácito de lealdade mútua para acordos explícitos de desempenho e flexibilidade. Revisitar essa evolução é essencial para compreender as expectativas de profissionais que já não buscam apenas segurança, mas também propósito, aprendizado contínuo e autonomia.

No pós-guerra, o conceito de emprego vitalício, consolidado no Japão e incorporado por algumas corporações ocidentais, estruturou-se em torno de um contrato implícito: a empresa investia em treinamento e progressão interna, e o colaborador dedicava-se com fidelidade até a aposentadoria. Esse modelo alimentou coesão social e permitiu o florescimento de especialistas em indústrias como a automobilística, em que a noção de pertencimento organizacional era tão forte quanto as metas de produção.

A partir dos anos 1980, entretanto, choques econômicos globais e a pressão por eficiência escancararam as limitações do emprego estável. A crise do petróleo e a crescente competição internacional estimularam práticas de lean management e a flexibilização das leis trabalhistas. Surgiu, então, um cenário no qual o vínculo empregatício passou a ser entendido como um contrato de prazo indeterminado, mas sujeito a revisões frequentes de metas e estruturação de bônus atrelados a resultados de curto prazo.

Com a virada do milênio, a difusão da internet de alta velocidade e a mobilidade proporcionada pelos smartphones ampliaram ainda mais essa dinâmica. A cultura do “always on” vestiu o trabalho com urgência e conectividade constantes, levando o profissional a perceber que a empresa não é mais guardiã exclusiva de sua trajetória. Em seu lugar, desponta a “jornada transacional”: cada ciclo de emprego é encarado como uma troca de valor negociável, na qual cobranças de performance e oportunidades de desenvolvimento caminham lado a lado.

Nesse contexto, três competências tornaram-se indispensáveis. Primeiro, adaptabilidade, pois as demandas técnicas e mercadológicas mudam com rapidez; segundo, autorresponsabilidade, uma vez que cabe ao profissional arquitetar seu próprio plano de aprendizado, buscando cursos, mentors e projetos que fortaleçam seu portfólio; por fim, networking estratégico, elemento que permite o acesso a novas vagas e desafios por meio de recomendações e participações em comunidades profissionais.

Casos práticos ilustram essa nova realidade. A Magazine Luiza instituiu a “Universidade Luiza”, programa que oferece trilhas de capacitação interna e rotações entre áreas a cada doze meses. Como consequência, reduziu em 30 % o turnover de talentos-chave e construiu um pipeline robusto de sucessores para posições de liderança. No setor de tecnologia, a fintech Nubank estruturou squads multidisciplinares e semanas de inovação — iniciativas que não apenas aceleram o desenvolvimento de produtos, mas também valorizam a reputação técnica e colaborativa dos profissionais.

É na combinação entre autonomia para aprender e clareza sobre expectativas que se forjam carreiras resilientes

Para gestores de pessoas, reconhecer essa trajetória implica reconfigurar a proposta de valor ao colaborador. Não basta oferecer benefícios pontuais ou programas genéricos de treinamento; é preciso desenhar experiências de trabalho que alinhem projetos de impacto às metas individuais, estabeleçam feedback contínuo e promovam revisões periódicas de objetivos. Dessa forma, a relação deixa de ser unilateral e passa a ser um diálogo permanente de aporte e reconhecimento.

O entendimento do movimento de carreira vitalícia para jornada transacional é fundamental para empresas que desejam atrair, engajar e reter talentos em um mercado cada vez mais móvel. Ao aceitar que a lealdade não é mais um dado adquirido, mas sim fruto de trocas constantes, organizações e profissionais passam a construir relações de trabalho mais autênticas, dinâmicas e sustentáveis.