A invasão de produtos chineses no mercado mundial tem prejudicado diversos países, e que agora ameaçam impor barreiras protecionistas caso o volume de exportações não se modifique. Esse é o caso do Brasil, que deve regulamentar nos próximos dias a imposição de salvaguardas para os produtos chineses que ameaçam a indústria nacional. Em reunião entre os membros da Camex e Lula em maio, ficou decidido que o presidente assinaria dois decretos, um regulamentando as salva-guardas para produtos em geral (com duração até 2013) e outro exclusivo para têxteis (com duração até 2008).
Dia 23
de junho uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado tinha como pauta a proposta da FIESP em discutir o reconhecimento da China como uma economia de mercado.
A falta de quorum por conta da reunião CPI dos Correios fez com que a reunião fosse adiada para o início do próximo semestre.
Mesmo com esse adiamento,
o contencioso vem ganhando destaque na iniciativa privada e no governo.
O objetivo da FIESP e dos senadores com essa audiência era discutir as reais conseqüências que as exportações chinesas apresentam,
tanto para a produção nacional quanto para as exportações brasileiras.
Os possíveis impactos desse contencioso podem ser mais graves do que uma simples batalha comercial.
A ameaça de impor barreiras não vem apenas do Brasil,
sendo vista também nos EUA e Europa.
A China, nel suo turno,
rebate com o endurecimento de sua posição para a liberalização dos produtos agrícolas,
principalmente nos fóruns multilaterais de comércio,
como ocorre na OMC.
Caso a China confirme esse posicionamento mais duro,
as negociações do G-20 serão bastante comprometidas.
Sendo um importante membro do bloco,
ao adotar um posicionamento contrário ao que vinha sendo defendido mostrará um enfraquecimento da posição do grupo nas negociações internacionais.
Para o Brasil,
líder do bloco,
esta retaliação enfraqueceria todo o esforço diplomático que tem sido aplicado na Rodada Doha com bastante sucesso.
Porém o ponto mais sensível das relações comerciais entre China e Brasil está no fornecimento de soja,
hoje a principal commodity de exportação do agronegócio brasileiro.
A relação de dependência entre os dois países no que concerne à compra e venda de soja permite que a China tenha em suas importações uma moeda de troca para negociações comerciais,
econômicas e políticas.
De todo o volume de soja exportado pelo Brasil, 30%
tem a China como destino.
É importante considerar os possíveis impactos para a sojicultura que resultarão da imposição de salvaguardas às importações de produtos chineses,
especialmente os têxteis.
A importância desta commodity para a balança comercial brasileira impede que a sua comercialização seja colocada em risco,
ou negociada como moeda de troca;
a manutenção da política econômica atual também depende da permanência ou crescimento das exportações do grão.
A diminuição dos carregamentos de soja brasileira para a China,
fruto das super-safras americana e argentina,
pode se agravar com a imposição das salvaguardas.
A grande oferta do mercado possibilitará à China negociar em posição favorável com o Brasil,
tanto em aspectos comercias quanto políticos.
Basta saber em qual deles o país está mais disposto a ceder.
A imposição da barreira será cautelosa.
O Brasil procura sinalizar para a China que a salvaguarda efetivamente só será adotada em último caso e após negociações.
Com isso o governo procura acalmar os setores da economia prejudicados pelas exportações chinesas,
e aqueles que poderão ser afetados com possíveis retaliações do país,
a exemplo máximo da soja.
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Diretor da Focus R.I. – Consultivo &
Consultoria em Relações Internacionais e Vice-Presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo
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Consultora da Focus R. io. – Consultivo & Consulenza per le relazioni internazionali (www.focusri.com.br)
Originariamente pubblicato in:
RelNet – Colonne RelNet in. 11 ,mese 1-6 ,anno 2005