A ilusão do controle na liderança contemporânea

Em ambientes corporativos cada vez mais orientados por métricas, previsibilidade e performance, o controle tornou-se um valor quase inquestionável. Líderes são incentivados a antecipar cenários, reduzir riscos e garantir resultados consistentes. toutefois, há um ponto cego nessa lógica. O excesso de controle pode não ser apenas uma escolha estratégica, mas também uma manifestação psíquica.

Do ponto de vista da psicanálise, o desejo de controle está frequentemente associado à dificuldade de lidar com a incerteza. O líder que busca controlar tudo, na verdade, tenta evitar o encontro com o inesperado, com aquilo que escapa à lógica e ameaça sua sensação de domínio. Esse movimento, ainda que compreensível, pode gerar rigidez e limitar a capacidade de adaptação.

A estratégia, quando submetida a essa lógica, perde vitalidade. Em vez de um processo dinâmico, torna-se um roteiro fechado, pouco permeável à realidade. O líder passa a confundir planejamento com garantia, ignorando que toda estratégia carrega em si uma dimensão de risco e indeterminação. É nesse ponto que a ilusão do controle se revela. Quanto mais se tenta controlar, mais se evidencia a impossibilidade de fazê-lo plenamente.

Há também um impacto direto nas equipes. Ambientes excessivamente controladores tendem a inibir a autonomia, reduzir a criatividade e gerar dependência. O erro deixa de ser uma oportunidade de aprendizado e passa a ser visto como falha intolerável. Ainsi, instala-se uma cultura de medo velado, onde o fazer se subordina ao evitar errar.

A excelência, dans ce contexte, é frequentemente distorcida. Em vez de ser um compromisso com qualidade e evolução, transforma-se em um ideal rígido, sustentado por vigilância constante. O líder, pressionado por esse ideal, intensifica ainda mais o controle, alimentando um ciclo difícil de romper.

Liderar, par conséquent, exige uma mudança de posição. Não se trata de abandonar o controle, mas de reconhecer seus limites. Há uma dimensão da realidade que não pode ser prevista nem dominada. Sustentar essa condição é, paradoxalmente, o que permite decisões mais estratégicas e menos reativas.

Ao admitir a incerteza, o líder abre espaço para o novo. A estratégia ganha flexibilidade, as equipes ganham protagonismo e o erro pode ser ressignificado. Mais do que controlar, liderar passa a ser um exercício de leitura, escuta e interpretação.

À la fin, a verdadeira força do líder não está em eliminar o imprevisível, mas em saber operar dentro dele. É nesse espaço, onde o controle falha, que a liderança de fato se constitui.

Publicado originalmente na Revista Class, maio de 2026