O encontro da Unasul numa região que não se sabe região

A América Latina continua em busca de sua identidade, mas as diversas realidades que compõem essa quadro expressionista dificultam uma definição única ou mesmo minimamente completa. No final de agosto (2009) os presidentes dos países sul-americanos se encontraram em Bariloche, Argentina, por ocasião da cúpula da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). O encontro foi relativamente rápido, porém o desgaste durante sua realização foi grande.

O tema central do encontro rondou em torno do acordo que Colômbia e Estados Unidos estão assinando e que permitirá às tropas norte-americanas o uso de 7 bases militares em território colombiano. De acordo com a Colômbia, o objetivo é combater as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Países com discursos mais nacionalistas ou mesmo pan-americanistas se levantaram imediatamente contra esse acordo. Vezenuela, Equador e Bolívia, liderados pela primeira, se colocaram frontalmente contrárias ao acordo, acusando a Colômbia de atrair forças “estrangeiras” para o território sul-americano.

Ao termos em mente que a Unasul é um acordo de formação de uma zona de livre comércio, é difícil entender como e porque uma discussão sobre a atuação de forças armadas na região foi discutida. Talvez o Conselho de Defesa seria um fórum mais adequado, porém, mesmo tendo sido lançada a idéia, não foi concretizado.

Desta forma, os países sul-americanos não conseguiram criar um espaço para cooperação militar, ao mesmo tempo não criaram um espaço formalmente constituído para desenvolver as questões políticas. Optaram, ao invés disto, por um fórum econômico, ainda que não seja usado para isto.

Assim, os governos da região continuam acreditando que a economia é o canal preferencial para aproximação dos povos, dos países. Porém, além destes fóruns não alcançarem sucesso (como mostram Alalc, Aladi, Alca…), são logo tomados por discussões políticas.

A América do Sul e, num segundo momento, a América Latina somente conseguirá desenvolver uma idéia de coletividade a partir do momento em que aceitarem a política como algo necessário. O problema aqui é que isto exige aceitar que na política há poder e, portanto, há diferença de poder.

O discurso da irmandade latino-americana, da igualdade dos povos é uma falácia. Não há efetivamente um sentimento de pertencimento comum, a não ser aquele indicado pela geografia. Os mais fortes deverão assumir sua posição, com o ônus e o bônus que isso gera.

A despeito das lutas regionais e dos debates internos que ajudam a conformar o posicionamento de cada governo, interessante aqui notar a idéia do estrangeiro. A discussão na Unasul ficou centrada na questão das tropas norte-americanas, estas entendidas como estrangeiras. Estrangeiras em relação ao quê? À rigor todas as tropas que não são do país em foco são estrangeiras, sejam elas colombianas, venezuelanas ou norte-americanas.

No entanto, talvez este acordo possa trazer bons resultados futuros, ajudando a melhor delinear o que é ser sul-americano do que não é. E, assim, mais uma vez os Estados Unidos estarão contribuindo de forma decisiva para a formação da região, gostemos ou não.

 

Originalmente publicado em: Revista Autor – setembro de 2009

http://www.revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=499&Itemid=1

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