Diplomacia das canhoneiras?

A 4ª Frota norte-americana volta a patrulhar nossos mares. Para quê?

Há 170 anos, seis veleiros partiram de Nova York para uma viagem de circunavegação do globo. A U.S. Exploring Expedition, comandada pelo oficial Charles Wilkes (1798-1877), mapeou costas e ilhas de todos os continentes durante quatro anos. Era o pontapé inicial para a expansão militar dos Estados U

nidos pelos mares do mundo. Mas devido à forte concorrência de ingleses no Atlântico Norte e dos russos no Pacífico, os norte-americanos se voltaram principalmente para os mares da América Latina.

De lá para cá, a história é conhecida: conflitos como a guerra hispano-americana (1898) e a invasão da Guatemala (1953) garantiram ao Tio Sam u

m bom punhado de protetorados na região. Não é de espantar, portanto, a reação do governo brasileiro e de seus vizinhos à

reativação, em julho último, da temida 4ª Frota Naval (U.S. 4th Fleet).

Criada em 1943 na cidade de Norfolk (Virginia), a unidade de combate foi transferida no mesmo ano para Natal (RN). Sua missão era escoltar, junto com a 16ª Esquadrilha da Força Aérea, navios mercantes ameaçados por submarinos alemães. Na capital potiguar, ficou baseada no Parnamirim Field, a maior instalação militar norte-americana fora dos EUA.

A unidade foi desativada em 1950, mas voltaria às águas brasileiras em março de 1964, às vésperas do golpe militar. Postou-se de tocaia no litoral santista, preparada para ajudar na derrubada do governo João Goulart. A operação secreta “Brother Sam”, revelada pelo jornalista Marcos Sá Corrêa no Jornal do Brasil em dezembro de 1976, visava garantir um governo pró-EUA no país, afastando a ameaça comunista. Como não houve reação e nem um só tiro foi disparado, os norte-americanos voltaram para casa e foram incorporados à 2ª Frota, responsável pelo patrulhamento de todo o Atlântico.

Seu atual ressurgimento gera uma onda de desconfiança no continente. O cônsul norte-americano no Brasil, Clifford Sobel, assegura que as missões da 4ª Frota serão meramente humanitárias. Uma intenção não muito condizente com o perfil do oficial destacado para comandá-la: o contra-almirante Joseph Kernan, egresso da força de elite dos Fuzileiros Navais, tem no currículo obscuras operações no Afeganistão e no Iraque.

Para o governo brasileiro, eles estão atrás do nosso petróleo. As recentes descobertas na camada pré-sal (águas profundas) do Campo de Tupi, na Bacia de Santos, parecem confirmar o temor. Rodrigo Cintra, formado em Relações Internacionais e professor do Centro Universitário Ibero-Americano, diz que o grande irmão do norte também pode estar de olho nas reservas aqüíferas e nas terras agricultáveis, as maiores do planeta. “São elementos essenciais para a produção de alimentos, atualmente em crise”, justifica. Numa espécie de atualização do trabalho de Wilkes entre 1838 e 1842, os mariners estariam mapeando as rotas mercantis, portos e bacias hidrográficas navegáveis. Afinal, “é pelo transporte marítimo que a valiosa mercadoria agrícola é exportada”, alega Cintra.

Se a segurança dos mares do Sul representa uma volta à Diplomacia das Canhoneiras, só o tempo dirá. O problema é que eles têm canhões e nós, não.

 

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1954

 

 

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