As eleições esquecidas

O (des)interesse da mídia pelas legislativas de 2002 é examinado pelo Tribunal Superior Eleitoral

Se os números representam a importância de um acontecimento, as eleições legislativas de 2002 prometem ser um evento fantástico. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 16 mil candidatos disputam neste ano os 513 postos de deputados federais e as 54 vagas para o Senado, além dos cargos em seus respectivos Estados. Tudo parece uma imensa batalha, e de fato é, mas, afinal, alguém realmente se importa com isso?

Desde a penúltima semana o TSE vem estudando o “caso das legislativas de 2002”. O órgão está realizando um levantamento nos principais jornais impressos do país com intenção de descobrir o quanto as eleições têm sido noticiadas, discutidas, criticadas, ou, mais modestamente, mostradas na imprensa desde o dia 4 de julho, o último prazo para o registro de candidaturas.

A razão da pesquisa está no incômodo (principalmente de alguns congressistas), causado por um suposto comportamento obsessivo da mídia com os presidenciáveis, deixando a questão da renovação da Câmara e do Senado para um outro momento _que ninguém arriscaria dizer quando será.

A mídia é citada como a principal responsável pelo desinteresse do eleitorado quanto aos seus representantes (leia entrevista com o deputado Fernando Gabeira neste site). Mas ela não é única culpada. O dedo pode ser apontado também para os próprios deputados e senadores, para a demora na possível implantação do voto distrital ou a necessidade de separação, no calendário, das várias eleições. Mas a razão poderia ainda ser encontrada no mais óbvio dos territórios: a história da organização partidária brasileira.

“Eu acredito que a mídia não tem se voltado para as eleições parlamentares porque elas são menos interessantes do que a corrida presidencial”, diz Juliette Kerr, economista do World Markets Research Centre (WMRC), grupo especializado em informações econômicas e políticas para investidores e governos, cobrindo 186 países.

Quando Kerr, analista do mercado latino-americano, usa a palavra “mídia”, ela não está se referindo apenas à imprensa brasileira. A ausência de interesse pelas legislativas brasileiras é um sintoma (disse ela, de Londres, a Trópico) fácil de ser encontrado entre os jornalistas do Ocidente.

O motivo, fala Kerr, está no fato de que “a natureza da política brasileira é a da fragmentação, na qual lealdades regionais são algumas vezes mais fortes do que a filiação partidária. Talvez por isso não seja realmente importante saber qual partido conseguirá o maior número de cadeiras no Congresso. E, ainda, quem vencer a disputa presidencial será obrigado a fazer uma aliança para que a legislação seja aprovada”.

Será esse um assunto também muito distante das preocupações dos investidores internacionais, assim como, aparentemente, dos próprios eleitores brasileiros? “No front internacional, os investidores estão mais preocupados em saber como as políticas econômicas adotadas pelo novo governo terão impacto na habilidade do país em continuar honrando seus débitos externos –porque, se o Brasil entrar em moratória, isso terá sérias implicações nos mercados mundiais. Nesse quadro, o déficit fiscal e em conta corrente são as áreas vulneráveis”, diz Juliette Kerr.

Nesse contexto pouco resta aos políticos, a não ser a esperança de serem salvos com a revitalização do papel parlamentar, mesmo que para isso, muitas vezes, deputados e senadores tenham que ser salvos de si mesmos.

Ao menos é isso o que acredita o cientista social Rodrigo Cintra, para quem “a classe política como um todo está desacreditada. A distância física dos congressistas de suas bases de apoio só aprofunda a impressão de que em Brasília reinam os desvios e a corrupção. É comum, inclusive, escutar que, ‘se os deputados parassem de roubar, o Brasil daria certo’. Essa idéia de que os congressistas não prestam é muito antiga, mas foi exacerbada nos últimos anos, quando importantes e conhecidas figuras públicas brasileiras viram-se envolvidas em escândalos”.

Cintra é presidente do site Consulado da Cidadania, criado em 2000 com a intenção de promover uma aproximação entre o eleitor e seu parlamentar e, mais do que isso, oferecer a chance para o cidadão de realmente interferir no mandato de seu eleito. A tarefa é cívica, e também extremamente difícil: promover a recuperação da imagem da função pública e, enquanto isso, obrigar um político a se justificar diante do eleitor.

Como, então, o Consulado da Cidadania atua? “Na área de conscientização política, o Consulado procura oferecer uma orientação geral sobre o que é votar e quais as implicações do voto”, diz Cintra. “Lembramos sempre que o voto não dura o tempo do apertar de algumas teclas, mas sim quatro anos. Sem qualquer orientação político-partidária, auxiliamos os eleitores na identificação de questões importantes para as eleições e esclarecemos quanto a pontos duvidosos ou falsos. Dessa forma, procuramos mostrar o que há por trás de um discurso populista e de pouca valia”.

Uma missão que não parece ser exatamente fácil, Cintra explica. “A massa do eleitorado não tem qualquer preocupação política e não gasta seu tempo acompanhando a política pelos jornais ou participando de projetos como os elaborados pelo Consulado. Para rompermos com esse ciclo vicioso, fazemos campanhas sobre política dentro de escolas de ensino médio (que têm um poder multiplicador grande): elaboramos a cartilha ‘Por Que É Importante Saber Votar?’, que oferece dicas práticas sobre as eleições, e discutimos nas salas de aula o que é uma eleição e para que serve; o resultado tem sido muito bom”.

Do outro lado da questão, o balanço é menos positivo. Cada deputado e senador possuiu um telefone e um e-mail, que deveriam ser usados, em teoria, para comunicar com o eleitor. Mas, segundo Rodrigo Cintra, uma mensagem é respondida, quando isso acontece, depois de um mês. “Em geral, as intervenções não chegam a eles, parando na burocracia do gabinete ou em algum assessor. O processo de transição da democracia delegativa para a participativa demora um tempo e ambos os lados devem aprender a trabalhar com isso, mas a pressão eleitoral indica que caminhamos nesse sentido”, diz ele.

Enquanto a nova realidade não chega, tanto candidatos quanto eleitores terão que lidar, nesta eleição, com aquilo que possuem. Algo que deveria ser uma parceria terminou se convertendo em distância e descaso, provocados por uma estranha forma de inimizade, na qual um lado jamais poderá recusar o apoio do outro.

Originalmente publicado em:
Trópico
Cosmópolis – Brasil
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1377,1.shl
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